Sustentabilidade na Construção Civil: como virou estratégia e por que está ganhando força
A sustentabilidade passou a ocupar um lugar central nas decisões da construção civil, saindo do campo exclusivamente ambiental para influenciar estratégias de negócio. Essa foi uma das mensagens mais recorrentes no Café Empresarial realizado nesta quarta-feira (12), na sede do Sinduscon-Rio, com a presença de representantes do poder público, da Caixa e de empresas do setor. O encontro discutiu de que forma práticas sustentáveis podem reforçar eficiência, competitividade e geração de valor ao longo da cadeia.
A abertura do evento ficou a cargo do vice-presidente do Sinduscon-Rio, Vinicius Benevides. Em sua fala, ele apontou que o tema deixou de ser tratado apenas como “visão de futuro” e passou a integrar decisões do presente. Benevides também comentou a experiência da Dimensional Engenharia, onde atua como diretor, citando projetos que utilizam certificações ambientais como EDGE e o Selo Casa Azul, da Caixa.
Prefeitura foca em revitalização da cidade existente
Na sequência, o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gustavo Guerrante, apresentou mudanças recentes na legislação urbanística do Rio e programas direcionados à requalificação de áreas já atendidas por infraestrutura, transporte e serviços. Entre os exemplos mencionados estão Porto Maravilha, Reviver Centro e Praça Onze Maravilha.
Segundo Guerrante, o objetivo é intensificar o aproveitamento da cidade já existente, estimulando ocupação e recuperação de regiões estruturadas, em vez de ampliar de forma desnecessária a área ocupada. Nesse contexto, o retrofit e a preservação do patrimônio ganharam destaque e passaram a contar com incentivos específicos da Prefeitura.
O secretário detalhou o Reviver Pro APAC como um dos instrumentos voltados a tornar a recuperação de imóveis degradados mais viável. De acordo com a apresentação, o programa prevê subsídio por metro quadrado recuperado e, em projetos de retrofit, prevê acréscimo de 50% no benefício. A proposta, conforme descrito, é preservar o patrimônio, recuperar edificações e reintroduzir esses espaços na dinâmica urbana.
Durante a conversa, Vinicius reforçou a importância do diálogo entre setores público e privado para que as políticas sejam construídas com aderência à realidade do setor e se convertam em projetos executáveis.
Na prática, sustentabilidade se traduz em eficiência
Parte da programação foi dedicada a exemplos de empresas que vêm incorporando sustentabilidade ao cotidiano dos negócios. Participaram as apresentações de Diego Alves (RJZ Cyrela), Adriana Santos (Construtora Tenda) e José Marcos (Sebrae/RJ).
Diego tratou de medidas que podem ser consideradas desde a concepção dos empreendimentos. Entre os pontos apresentados, esteve a racionalização de projetos, com foco na redução de resíduos e de retrabalho, além de ganhos de produtividade. Ele também mencionou a importância de considerar critérios ambientais na seleção de fornecedores.
Adriana abordou desafios ligados à habitação popular e sustentou que, quando incorporada à estratégia do negócio, a sustentabilidade pode melhorar resultados e contribuir para eficiência e competitividade. No mesmo eixo, destacou a relevância de governança e previsibilidade para diminuir incertezas no processo construtivo. “A melhor estratégia ambiental é aquela que torna o processo construtivo mais eficiente e responsável. Boa governança reduz incertezas e, na construção, previsibilidade é valor”, afirmou.
Já José Marcos levou a discussão para a gestão do dia a dia nas empresas. A apresentação enfatizou que, para haver impacto real, também é necessário observar rentabilidade. Ele citou perdas que comprometem o resultado, como retrabalho, desperdício de materiais e falhas de orçamento, defendendo uma gestão com enfoque mais estratégico. A proposta indicada foi substituir o modelo do “dono executor” por práticas que favoreçam eficiência, organização e preparo para as exigências do mercado.
Sustentabilidade ganha espaço também no financiamento
O fechamento do encontro trouxe duas perspectivas da Caixa sobre a relação entre sustentabilidade, mercado imobiliário e financiamento.
Cláudio Martins, superintendente de Habitação da Caixa no Rio de Janeiro, afirmou que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar na agenda financeira e estratégica da construção civil e do mercado imobiliário. Ele apresentou o papel da instituição como indutora do mercado e apontou que crédito imobiliário e critérios ESG podem favorecer empreendimentos mais resilientes, com maior eficiência e menor custo operacional. Martins também mencionou um público consumidor que tende a valorizar conforto, economia de recursos e saúde. Nessa visão, a sustentabilidade passa a ser tratada como fator ligado à atração de capital, redução de riscos climáticos e valorização dos empreendimentos.
Morenno de Macedo, da área de Finanças Sustentáveis da Caixa, aprofundou o debate pelo recorte do financiamento. A fala indicou possibilidades de atuação para conectar capital, políticas públicas e demanda do setor produtivo, com foco em ampliar a habitação verde. Nesse processo, a Caixa foi descrita como estruturadora — aproximando recursos nacionais e internacionais — e como indutora de mercado, ao incorporar critérios de sustentabilidade ao financiamento. Também foi citada a função de plataforma de escala, voltada a viabilizar projetos sustentáveis como carteiras financiáveis. A ideia central, segundo a apresentação, é aumentar o acesso ao capital e apoiar iniciativas capazes de demonstrar desempenho ambiental, social e econômico.
O que se destacou, ao final, foi a necessidade de o financiamento verde avançar além de ações isoladas, formando uma estratégia com capacidade de ganhar escala e acompanhar as dinâmicas do mercado imobiliário.
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