Dez anos após a Rio 2016: legado em construção e balanço das heranças até hoje
Há exatamente dez anos, o Maracanã recebeu a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, quando o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima acendeu a pira olímpica. O evento ocorreu em meio a mudanças que vinham sendo discutidas e executadas em diferentes frentes da cidade. Algumas obras seguiram depois do período olímpico, mas a transformação urbana relacionada ao legado do evento ganhou ritmo, especialmente na Zona Portuária.
Entre os processos em andamento, destaca-se o Porto Maravilha, projeto que envolveu a remoção do elevado da Perimetral e a reurbanização de áreas próximas à baía. Segundo o recorte mais recente, a fase atual é marcada pela consolidação do novo território, com a chegada de moradores a condomínios em etapa final de construção.
Porto Maravilha: de frente de obras a área de uso cotidiano
Embora a ideia de acelerar o desenvolvimento da Região Portuária não estivesse entre os compromissos formais do evento, a preparação para a Olimpíada contribuiu para encurtar prazos e redefinir prioridades. A partir de 2013, o elevado da Perimetral foi demolido. Em sequência, ruas próximas foram reurbanizadas, e o Centro passou a contar com uma nova organização viária, com a construção de túneis.
A atual etapa, mais do que inaugurações pontuais, busca consolidar o fluxo e os usos do espaço recuperado. Parte dos antigos armazéns se tornou cenário de feiras, exposições e eventos, incluindo a Rio Innovation Week, que ocorre nesta semana. No setor gastronômico, o antigo Edifício Touring, na Praça Mauá, foi reaberto no início do ano em formato de polo.
Esse movimento também se relaciona com a ocupação habitacional. Aproximadamente 3,4 mil apartamentos já teriam sido entregues, criando uma base de moradores capaz de sustentar a dinâmica econômica do local.
O ciclo de investimentos culturais e turísticos iniciado durante a preparação para os Jogos incluiu a inauguração do Museu do Amanhã (desde dezembro de 2015), do Museu de Arte do Rio (2013) e do AquaRio (2016). Depois, a região ganhou também a roda-gigante Yup Star (2019). Durante as obras, a área trouxe ainda achados históricos associados ao Cais do Valongo, ponto de chegada de pessoas escravizadas. Pesquisadores citam estimativas de que até um milhão de sequestrados desembarcariam ali ao longo do século XIX.
Em análise sobre efeitos locais, a diretora e produtora Tuca Moraes, da companhia teatral Ensaio Aberto, relaciona a revitalização ao aumento de movimento na Região Portuária e às oportunidades criadas para quem investiu antes da chegada do público em massa. A sede do grupo funciona no Armazém da Utopia, na Avenida Rodrigues Alves. A trupe ocupa o espaço desde 2010 e, a partir de 2023, o galpão passou por reforma e ampliação em obras estimadas em R$ 35 milhões, com apoio de investidores privados via renúncia fiscal pela Lei Rouanet.
Efervescência olímpica e consolidação de público
Gaetano Lops, da Agência Gael Comunicações, responsável por uma agenda paralela à Olimpíada em espaços portuários e no Parque Madureira, aponta que o Rio 2016 ajudou a consolidar a revitalização na região. Em parceria com investidores privados, ele menciona uma retomada do painel “Etnias”, do artista urbano Eduardo Kobra, associado aos cartões-postais do período olímpico.
Na comparação com outras edições recentes, Lops afirma que, na área do Porto Maravilha, o público alcançou 4,5 milhões de pessoas. Ele coloca esse número em contraste com a referência a Paris 2024, citando 2,5 milhões em áreas menores.
O Porto Maravilha foi viabilizado com um custo aproximado de R$ 10 bilhões. Entre os instrumentos utilizados, foi mencionado o mecanismo legal de operação urbana consorciada, que aumenta o potencial de construção na área. Essa concessão é acessada por meio da compra de títulos financeiros (Cepacs), destinados ao custeio da recuperação da região degradada.
Baía de Guanabara: cronograma estendido para 2033
Ao ser escolhida sede dos Jogos Olímpicos, a cidade assumiu, entre outras promessas, a necessidade de despoluir a Baía de Guanabara. Até então, um histórico de tentativas indicava que o problema não havia sido resolvido. Em meio a dificuldades financeiras do estado, recursos não teriam sido suficientes para cumprir a meta estabelecida no ciclo anterior.
A reorganização mais recente passa por uma expectativa de melhora progressiva até 2033. Intervenções vêm sendo executadas pela concessionária Águas do Rio, vencedora do leilão estadual em 2021. O modelo de concessão transferiu à iniciativa privada a responsabilidade de investir em infraestrutura e manutenção das redes de esgoto.
Entre as metas divulgadas, está o tratamento de 90% do esgoto da Região Metropolitana nos próximos sete anos. O investimento previsto é de R$ 19 bilhões, incluindo R$ 2,7 bilhões para a construção de galerias de cintura. A finalidade é captar o esgoto que chega à baía, despejado irregularmente na rede de águas pluviais.
Em alguns casos, o investimento não se restringiu a obras novas, mas também a manutenção e adequações em estruturas existentes. Isso é associado a melhorias de condições de balneabilidade em áreas como entorno do Museu do Amanhã e praias da Glória, do Flamengo e de Botafogo. Em 2016, as regatas de vela olímpica ocorreram em cenário de poluição próximo à Marina da Glória, com medidas para reduzir o impacto do lixo no espelho d’água.
Interceptor oceânico e mudanças de operação
Um elemento citado no debate sobre resultados é o interceptor oceânico, responsável por captar parte do esgoto da Zona Sul e conduzi-lo ao emissário submarino de Ipanema. Conforme a Águas do Rio, o sistema não era limpo desde sua implantação, há mais de 50 anos. A empresa relata que a remoção de resíduos teria aumentado a capacidade de captar esgoto e contribuído para melhorias ambientais na área.
O diretor-presidente Anselmo Leal também destaca que prefeituras têm papel relevante no processo, incluindo a necessidade de conter crescimento desordenado no entorno da baía. A empresa informa ainda que intervenções na capital e na Baixada teriam reduzido o volume de esgoto que chega diariamente ao corpo hídrico: 134 milhões de litros por dia deixariam de cair na Baía de Guanabara, equivalente a 53 piscinas olímpicas de água contaminada.
Entre as explicações apontadas para o histórico do problema, está o funcionamento parcial de estações de tratamento por falta de conexão da rede com residências. Mesmo com construção ou reformas de unidades, a ausência de conexões impediria que as estruturas operassem em capacidade plena.
Medidas durante a Olimpíada e obras não concluídas no prazo
Em 2016, para minimizar o impacto da poluição durante as competições de vela, as embarcações foram posicionadas próximas às raias olímpicas para recolher lixo e evitar que materiais se prendesse às estruturas usadas no evento.
Mesmo com investimentos iniciados durante a preparação, algumas obras consideradas relevantes não teriam sido concluídas a tempo. O tronco coletor da Cidade Nova, ligado ao atendimento de parte do centro do Rio, só finalizaria em 2019. Segundo a descrição apresentada, o sistema desvia para a Estação de Tratamento de Alegria (Caju) um volume de esgoto equivalente a 800 litros por segundo.
Mobilidade urbana: melhorias e novas pressões no trânsito
A estrutura de transporte implantada em 2016 incluiu a inauguração inicial de serviços de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na região central e a operação da Linha 4 do metrô, conectando a Zona Sul à Barra da Tijuca. Também foram citadas a criação do BRT Transolímpico, ligando a Barra Olímpica a áreas da Zona Oeste, e a implantação de uma terceira faixa no Elevado do Joá, operada como reversível conforme horários de maior demanda.
Dez anos depois, a intensificação da ocupação urbana em áreas Oeste e Sudoeste ampliou a pressão sobre as vias. A descrição indica congestionamentos em horários de pico até mesmo em avenidas duplicadas próximas ao Parque Olímpico, como Carlos Carvalho, Embaixador Abelardo Bueno e Salvador Allende.
Diante dos gargalos, a prefeitura teria iniciado a construção de uma nova rótula para reorganizar a chegada à Barra, visando reduzir engarrafamentos na orla. Para esse tipo de intervenção, a previsão apresentada é de conclusão até novembro. Outras frentes envolvem licitações para alargar a Avenida Ayrton Senna no acesso à Linha Amarela e a abertura de novo trecho da Salvador Allende até o Riocentro.
Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra, sustenta que o ritmo dos investimentos públicos em vias não acompanhou o crescimento da região. Ele também menciona a necessidade de conclusão de projetos previstos no Plano Lúcio Costa, que orienta a área desde 1969. Para Dumbrosck, convencer moradores a deixarem o carro em casa depende de priorizar o metrô.
O coordenador do Fórum de Mobilidade Urbana, Licínio Rogério, concorda e acrescenta que recursos previstos para novas vias poderiam ser melhor direcionados ao sistema metroviário. Ele cita ainda como essencial concluir a conexão entre as estações da Carioca e do Estácio, apontada como incompleta, antes de ampliar outras etapas.
No transporte por ônibus, a promessa de frota climatizada até 2016 não teria se concretizado integralmente. Ainda assim, o cenário mais recente indica que o índice de coletivos com ar-condicionado chegava a 99,2% em julho. Já o plano de racionalização de linhas, voltado a evitar concorrência com outros modais, está suspenso desde 2015, com previsão de retomada via novas concessões de linhas até 2028.
Gávea: obra retomada e prazo para 2028
A construção da estação do metrô da Gávea permaneceu cerca de dez anos sem avanços antes de ser retomada no ano passado. A previsão é que a inauguração ocorra em 2028, com ligação apenas à estação de São Conrado, o que implica deslocamento até lá para acessar outras paradas do sistema. Já nas linhas do VLT, as obras teriam sido concluídas há cerca de dois anos.
Segurança pública: do programa das UPPs às operações posteriores
A discussão sobre segurança esteve no centro da candidatura olímpica. Em 2009, quando o Rio foi defendido como sede em Copenhague, o tema foi tratado como decisivo para superar concorrentes como Madri, Tóquio e Chicago. Na apresentação, o governo fluminense destacou o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), lançado em 2008, como parte de uma estratégia de redução da criminalidade e garantia de segurança para o megaevento.
À época, existiam quatro UPPs e, em seguida, o programa teria expandido para 38 unidades até o período da Olimpíada. Ainda assim, a avaliação atual é de que o tema segue como desafio. José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança Pública e responsável pela implantação das UPPs, afirma que o início se apoiou na fixação de metas de desempenho e no entendimento de que deveria ser política de Estado. Para ele, o problema teria surgido com a expansão desordenada e a falta de recursos.
Em 2016, relatos apontaram dificuldades durante a preparação e a atuação de agentes de força nacional mobilizados para o evento. Um dos exemplos mencionados envolve alojamento no condomínio Vila Carioca, no Minha Casa Minha Vida, na Gardênia Azul, área controlada por tráfico e milícia. Na época, teriam surgido denúncias de imposição de rotinas e constrangimentos associados a controle local, negados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).
Após os Jogos, a questão levou a uma intervenção federal em 2018, mas as preocupações continuaram. Em outubro do ano anterior, uma operação realizada nos complexos do Alemão e da Penha teria resultado em 121 mortes, com presença de mortes de policiais. O projeto Cidade Integrada, citado como retomada de territórios lançado por Cláudio Castro, não teria avançado como esperado.
No mesmo contexto, investigações teriam apontado envolvimento de políticos com o tráfico e ligação com episódios como o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados pelo duplo homicídio, de acordo com o que foi descrito.
Robson Rodrigues, coronel da reserva e antropólogo, ex-coordenador das UPPs, aponta que segurança não se limita a megaeventos e ao volume de efetivos mobilizados. Para ele, o desafio está na sustentação de operações e na necessidade de planejamento e investigação policial bem-feita.
Legado urbano além da Olimpíada: equipamentos e mudanças de uso
Entre os impactos citados, há mudanças associadas a diferentes espaços da cidade.
- Sambódromo: a área de competições de tiro com arco foi ampliada de 60 mil para 75 mil lugares, com expectativa de reformas futuras como parte do projeto Praça Onze Maravilha.
- Parque dos Atletas: após receber R$ 44 milhões em infraestrutura, o terreno vizinho ao Parque Olímpico teria sido devolvido aos antigos proprietários em 2022, já que indenizações não teriam sido pagas.
- Autódromo: com o avanço do Parque Olímpico, o autódromo internacional foi fechado. Há um projeto para nova pista em Guaratiba, ainda dependente de licenciamento ambiental.
- Escolas: uma arena utilizada em provas de taekwondo e esgrima se tornou escola pública. Outras unidades também foram criadas a partir de arenas desmontadas, com informação de que as cinco escolas atendem 2.577 alunos.
- Concessão do complexo esportivo: o grupo Rock In World recebeu concessão municipal para explorar comercialmente e manter espaços como complexo de tênis, velódromo e Museu Olímpico na Barra Olímpica, com manutenção da Vila Olímpica existente no velódromo.
- Parque Rita Lee: inaugurado em 2024, o espaço tem mais de 100 mil metros quadrados e, conforme relatos, usuários reclamam de pouca arborização.
- Hotéis e eventos: benefícios fiscais e alterações urbanísticas foram associados ao aumento de vagas hoteleiras e à capacidade de receber visitantes e atletas, além de uma reforma ampliando o Riocentro para captar mais eventos.
- Piscina olímpica: no início de 2026, a piscina olímpica do Parque Oeste em Inhoaíba foi reaberta e passou a oferecer atividades como aulas de natação e hidroginástica.
Ao longo da década, o Rio 2016 deixou marcas urbanas e culturais que seguem sendo ajustadas. Em paralelo, questões como segurança pública, saneamento ambiental e mobilidade permanecem como temas em construção, com prazos e ritmos que variam entre diferentes áreas da cidade.
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