Imobiliário projeta 2026 promissor, mas sinaliza cautela já para 2027

Representantes de instituições ligadas ao crédito imobiliário, ao setor da construção e à indústria de materiais se reuniram em Florianópolis (SC) durante o Construsummit para avaliar o cenário do mercado nos próximos anos. Em painel, foram discutidos sinais de continuidade do crescimento, com diferenças entre crédito, obras e produção, além de alertas sobre variáveis que podem limitar um avanço mais amplo: juros, custos e disponibilidade de funding, mão de obra e tributação.

O debate indicou que o setor imobiliário brasileiro mantém expectativa de expansão no curto prazo, mas com maior cautela quando o horizonte chega a 2027. A leitura apresentada por diferentes segmentos foi a de que a sustentação tende a vir do crédito habitacional, enquanto a atividade econômica relacionada à construção deve evoluir em ritmo mais moderado, influenciada por desafios estruturais ainda presentes no setor.

2026 segue como ano de força para o crédito

Na avaliação do painel, 2026 deve ser um período mais favorável para o financiamento imobiliário, com destaque para programas voltados à habitação de interesse social e para recursos do FGTS. Raul Gomes, líder da Superintendência Nacional de Habitação Pessoa Jurídica da Caixa, afirmou que o ano pode representar o melhor desempenho da história do banco para o imobiliário, com projeção de evolução para além de R$ 250 bilhões. Segundo ele, a Caixa registrou crescimento de 30% no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período de 2025 e prevê um ciclo de expansão até 2028, ainda que com prudência.

O representante também vinculou o desempenho ao papel do Minha Casa Minha Vida, descrito como fonte de sustentação para o segmento em meio ao ambiente de juros elevados. Conforme o painel, o programa teria ganhado mais previsibilidade com a aprovação do orçamento plurianual do FGTS para 2026, 2027 e 2028 e com a ampliação recente de frentes de atuação.

Do ponto de vista dos financiadores privados, o quadro também foi descrito como positivo para 2026. Filipe Pontual, diretor-executivo da ABECIP, disse que o crédito imobiliário total deve crescer 28% em 2026. Ele mencionou crescimento previsto de 15% no SBPE e avanço de 35% no FGTS, em um movimento atribuído, entre outros fatores, à entrada de recursos do Fundo Social do pré-sal.

2027 depende do cenário macroeconômico

Apesar da expectativa de continuidade no ciclo, os participantes associaram a evolução do mercado em 2027 a mudanças no ambiente macroeconômico. Pontual afirmou que a direção do próximo ano dependerá, principalmente, do início de um ciclo de queda dos juros. A avaliação colocada no painel foi a de que a melhora das condições econômicas pode destravar o segmento de média e alta renda, cuja dinâmica tende a ser mais sensível ao custo do financiamento.

Na mesma direção, a discussão reforçou que a força do crédito não se traduz automaticamente, na mesma velocidade, em expansão mais disseminada na construção civil. Houve consenso de que o mercado pode seguir aquecido, mas com diferenças entre os segmentos envolvidos.

Ritmo de obras e produção ainda abaixo do impulso do crédito

O painel também apontou que construtoras e fabricantes de materiais enxergam um cenário menos acelerado para a atividade real, mesmo diante do avanço do financiamento. A CBIC, representada por Fernando Guedes Ferreira Filho, citou como entraves a taxa de juros elevada, a escassez de mão de obra qualificada e a complexidade tributária — agora impactada pela transição relacionada à reforma tributária.

Com base nesse panorama, a expectativa da CBIC para a construção em 2026 ficou em crescimento de 1%. No mesmo tom de moderação, Mauro Franco, presidente-executivo da ABRAMAT, afirmou que a produção de materiais de construção deve avançar em torno de 1%, ainda que existam oportunidades no horizonte.

Essa diferença entre o desempenho do crédito e o ritmo da construção foi tratada como elemento central do debate: segundo os participantes, o mercado tem sustentação, mas permanece distante de um ciclo de expansão mais amplo e simultâneo entre financiamento, obras e cadeia de materiais.

Minha Casa Minha Vida como base de estabilidade

Entre os pontos recorrentes do painel, o Minha Casa Minha Vida foi caracterizado como um “porto seguro” para o setor em um contexto de custo de capital mais alto. Raul Gomes afirmou que o programa atende 90% da população brasileira — informação apresentada no painel — e ressaltou que a expectativa é de que não faltem recursos. Ele também defendeu que o programa não oscila com a taxa de juros.

Gomes atribuiu esse efeito a mudanças recentes consideradas relevantes para a estrutura do funding: a criação de uma faixa voltada à classe média, a entrada do Fundo Social do pré-sal no financiamento do programa e o lançamento do Casa Reforma Brasil, direcionado a melhorias habitacionais em larga escala.

Mesmo com o tom otimista sobre o programa, a discussão reconheceu que o ambiente de juros altos impacta a previsibilidade dos projetos, a capacidade de pagamento das famílias e a dinâmica de inadimplência. O representante da Caixa afirmou que o cenário de custo de capital elevado já está estabelecido e que, nesse contexto, não basta “crescer por crescer”; a prioridade passa a ser crescer com eficiência.

Segundo ele, a inadimplência na habitação da Caixa segue em patamar controlado, embora tenha apresentado tendência de alta desde o fim do ano anterior.

Tributação e regras como fatores que ganham peso

Na visão da CBIC, a preocupação vai além de variáveis financeiras. Guedes afirmou que, em pesquisas recentes da entidade com a CNI, a questão tributária passou a aparecer antes de outros temas enfrentados pelas empresas, em algumas rodadas acima de juros e mão de obra. No painel, foi destacada a importância do desenho institucional do setor nos próximos anos, especialmente por causa do efeito prático que a reforma tributária pode produzir sobre a precificação.

O executivo também mencionou que a entrada em vigor da reforma tributária em 2027 deve impor um novo desafio para construtoras e incorporadoras, exigindo ajustes na forma como preços e custos são calculados. Outro ponto levantado foi a pressão recorrente sobre o FGTS, que frequentemente é alvo de propostas para financiar outras políticas públicas e despesas, tema apontado como relevante para a sustentabilidade do fundo.

Diversificação do funding e eficiência operacional

Para a ABECIP, o caminho de crescimento do mercado depende cada vez mais da capacidade de financiar operações por diferentes estruturas. Pontual afirmou que a diversificação de funding deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ser condição para o avanço do setor. Ele também contextualizou que o crédito imobiliário, no Brasil, equivale a uma parcela do PIB descrita no painel entre 10,5% e 11%, o que, segundo ele, é um patamar distante do visto em economias comparáveis.

No debate, foi citado que a poupança não seria suficiente, sozinha, para sustentar a expansão. Entre os instrumentos apontados como de crescente importância estão LCI, LIG, CRI e FIDC.

Outro tema recorrente foi a busca por maior produtividade. As discussões mencionaram a necessidade de eficiência operacional, maior uso de dados e inteligência artificial, digitalização da jornada de crédito e também a industrialização da construção. Franco, da ABRAMAT, ressaltou que, na avaliação do setor, o principal gargalo não é tecnológico — e sim regulatório, tributário e cultural.

Com isso, o painel retratou um quadro em que a demanda por financiamento aparece como elemento de sustentação, enquanto a expansão mais consistente da construção depende da combinação entre custos, disponibilidade de recursos e regras que impactam diretamente a operação das empresas.

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