Porto Maravilha: +3,4 mil novos apartamentos em 5 anos e forte valorização imobiliária

O Porto Maravilha, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, passa por uma etapa de expansão residencial que tem alterado o ritmo do bairro e movimentado o mercado imobiliário. Em um intervalo de cinco anos, a região recebeu 30 licenças para novos empreendimentos, somando mais de 12 mil unidades habitacionais. Deste total, 3.385 já foram entregues, com destaque para o bairro de Santo Cristo.
O avanço no número de moradias também se refletiu na valorização dos imóveis. Levantamento aponta que os preços subiram 54% em cinco anos, um percentual considerado quase quatro vezes maior do que a média do município.
Apesar da mudança no perfil urbano, moradores relatam que a vida cotidiana ainda enfrenta lacunas, especialmente no acesso a serviços e na sensação de segurança. Parte de quem já vivia no entorno e parte de quem chegou recentemente descrevem a mesma combinação de desafios: menos oferta comercial do que a demanda, dificuldades com equipamentos públicos e impactos no custo de vida.
Transformações na Zona Portuária
A reconfiguração da Zona Portuária teve início com a demolição do Elevado da Perimetral e ganhou impulso com investimentos vinculados a eventos esportivos internacionais. As obras ajudaram a recuperar áreas históricas, viabilizaram a implantação do VLT e contribuíram para a revitalização da Praça Mauá, criando espaço para novos projetos imobiliários.
O Porto Maravilha, criado há 16 anos, estabeleceu regras urbanísticas próprias para estimular investimentos privados por meio da venda de potencial construtivo. Depois de um período de retração durante a pandemia, o segmento residencial passou a liderar a expansão na região.
Para quem acompanhou esse processo desde o começo, o bairro apresenta hoje uma presença mais constante de moradores e atividades. A maquiadora Ariana Bassi, apontada como uma das primeiras residentes da nova fase, afirma perceber o entorno como algo já integrado à sua rotina.
“Já me sinto da região, parece que eu já moro aqui a vida inteira.”
O crescimento também abriu caminhos para negócios locais. O comerciante Gabriel Laureano começou vendendo alimentos em um carrinho e, mais tarde, passou a administrar um food truck. Mesmo com a atividade em andamento, ele relata a busca por um local para abrir um restaurante no bairro.
Segurança e rotina
Embora a revitalização urbana seja visível, a avaliação sobre segurança aparece como um ponto sensível para moradores e trabalhadores. O empresário Luiz Fernando Costa Rezende afirma que o policiamento ostensivo não seria suficiente para acompanhar o crescimento.
“A gente vê pouco carro de polícia (…) Eu percebo aqui uma privatização na parte da segurança. Os condomínios contratam segurança privada pra fornecer essa segurança que essas pessoas que estão morando aqui precisam.”
Já o comerciante Caio Guerra diz que o fluxo diminui à noite e isso, na prática, reduziria as condições de segurança no período.
“Quando chega no horário da noite (…) o bairro fica um pouco deserto e a gente não consegue ter essa segurança.”
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) indicam que, entre janeiro e maio deste ano, a área atendida pela delegacia da região registrou aumento de 6% nos furtos, com 1.394 ocorrências. No mesmo recorte, os roubos de celular tiveram alta de 65%, enquanto os roubos de veículos cresceram 240% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Valorização imobiliária e custo de vida
A valorização do metro quadrado, além de mudar o cenário para o mercado, repercute na vida de quem mora. Em Santo Cristo, o preço por metro quadrado teria crescido 54% nos últimos cinco anos, segundo dados da plataforma Bel Radar, em ritmo apontado como superior ao observado na cidade como um todo.
Luiz Fernando afirma que a procura por imóveis aumentou, mas a oferta teria ficado aquém do interesse. Segundo ele, há demanda por compra e para ocupação imediata.
“Virou uma agulha no palheiro. Tem gente querendo comprar apartamento aqui para morar de imediato e não tem. Só para i futuro, 2028, 2029”.
Ele também descreve valores de aluguel que, em sua avaliação, se aproximariam do patamar de bairros mais caros. De acordo com o empresário, apartamentos de um quarto já seriam alugados por cerca de R$ 3 mil.
“Eu moro na Zona Sul do Rio de Janeiro e é preço de Zona Sul aqui”, especulou Luiz.
Para moradores antigos, a alta pressiona o orçamento. Natália Caverno, coordenadora de projetos e residente há quase quatro décadas na Saúde, aponta que a procura elevou preços no Centro e que o avanço dos condomínios ampliou o impacto.
Outros relatos reforçam a dificuldade de permanência. O professor Bruno Rodrigues diz que parte dos moradores tradicionais, acostumados a pagar aluguel, poderia ter obstáculos para seguir no bairro diante do aumento de custos.
“Têm muitos que são assim nascidos e criados que moram de aluguel até hoje. E os donos dos imóveis, eles não querem saber que tá sendo revitalizado, eles querem botar o imóvel mais caro. E se você tiver condições de morar ok, se você não tiver Amém”, afirmou.
Faltam mercados e serviços
Em meio ao avanço das moradias, moradores destacam que o comércio ainda não acompanha o ritmo de ocupação. Ariana Bassi resume o diagnóstico sobre a carência de estabelecimentos e equipamentos necessários no dia a dia.
“Falta mercado, falta escola, falta uma clínica da família”.
Ela relata que, em algumas situações, precisa se deslocar para bairros vizinhos até mesmo para compras básicas.
“A gente chega no mercado as vezes não tem um arroz. E aí como é que fica? Você tem que acessar outros bairros”, contou Ariana.
Gabriel Laureano sustenta a ideia de que há espaço para diferentes tipos de comércio. Para ele, além de restaurantes, também seriam necessários serviços como farmácias e outras ofertas voltadas ao consumo cotidiano.
“Falta bastante de restaurantes (…) farmácias entre outros comércios”.
O mecânico André Luiz Martins acrescenta reclamações sobre infraestrutura. Entre os pontos citados, ele destaca instabilidade no abastecimento de água e afirma que, sem soluções próprias — como bombas — a situação se agrava em andares mais altos. Também menciona a dependência de carro pipa por parte de restaurantes.
“Água aqui é muito precário. Quem não tem uma bomba, segundo andar, terceiro andar, não tem água. Falta com muita frequência, com muita frequência os restaurantes aqui dependem de carro pipa”, lembrou.
Previsões da prefeitura para o ritmo de serviços
Ao comentar o cenário, o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima, afirma que a infraestrutura urbana do Porto Maravilha seria uma das mais modernas da cidade e que a expansão de serviços ocorreria de forma gradual, acompanhando o aumento populacional.
Segundo ele, a região teria recebido investimentos que colocariam sua infraestrutura em patamar elevado em relação a outras áreas do município.
“Do ponto de vista de infraestrutura urbana (…) não há na cidade infraestrutura mais nova do que aquela que foi feito na região do porto”.
Sobre as reclamações, o secretário interpreta como um descompasso esperado entre o crescimento de moradores e a abertura de novos estabelecimentos.
“Onde tem demanda surge oferta”.
Ele também afirma haver um supermercado em construção e diz que a chegada de mais moradores pode aumentar a circulação de pessoas e contribuir para a sensação de segurança.
Na avaliação da presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil no Rio de Janeiro (IAB-RJ), Marcela Marques Abla, o avanço do bairro depende não apenas dos empreendimentos, mas também da qualidade de vida oferecida aos moradores.
“A gente tem que pensar na base, quem vive já o bairro ou as pessoas que estão vindo para cá”.
Marcela lembra ainda que o projeto original previa a construção de 10 mil unidades habitacionais populares, mas que essa meta não teria sido atingida. Para ela, as próximas etapas do desenvolvimento devem ser construídas em conjunto com a sociedade.
Ao tratar do futuro, a arquiteta associa o pleno funcionamento do Porto à integração entre moradia, comércio, cultura, trabalho e espaços públicos.
“É uma cidade viva que pulsa, cultura, moradia, trabalho e paisagem, tudo junto e misturado”.
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