Samba-enredo clássico na festa: prefeito do Rio sanciona lei da Praça (…)
“Ó, Praça Onze, tu és imortal! Teus braços embalaram o samba…”. A lembrança do samba “Bumbum paticumbum prugurundum”, do Império de Serrano (1982), marcou o tom do anúncio feito pelo prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere (PSD), em cerimônia realizada nesta quinta-feira (09). Na ocasião, foi sancionada a Lei Complementar 301/2026, que cria a Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) Praça Onze Maravilha.
De acordo com a proposta aprovada, a AEIU passa a orientar um amplo plano de requalificação urbana e infraestrutura para a região histórica conhecida como Praça Onze. A iniciativa abrange uma área total de 458 mil metros quadrados e prevê investimentos estimados em R$ 1,7 bilhão ao longo dos próximos 20 anos.
Entre os eixos do projeto, está a previsão de construção de 37 mil novas unidades residenciais na área de influência do programa, em uma trajetória que, segundo os formuladores, acompanha experiências recentes em outras partes da cidade, como a região portuária e o Centro.
Plano de reforma urbana e proposta de prioridade aos moradores
Durante o discurso, Cavaliere afirmou que a intervenção representa uma oportunidade para promover desenvolvimento na área, com atenção ao cotidiano de quem vive no entorno. Ele destacou que, embora a presença de moradores seja considerada reduzida atualmente, parte dessas famílias enfrenta condições consideradas degradantes e, por isso, seriam tratadas como prioridade.
O prefeito também comparou o tipo de encaminhamento que pretende adotar a uma dinâmica de “reunião de condomínio”, sugerindo que o processo deve ser conduzido com foco em prioridades locais. Na fala, ele mencionou a intenção de priorizar pontos como a Vila Operária, descrita como uma edificação de relevância histórica e cultural por reunir referências de diferentes culturas.
Segundo Cavaliere, o planejamento inclui ações associadas ao universo do samba e de equipamentos culturais do território. Entre os trechos citados no discurso estão a área do Sambódromo e a construção de uma nova Apoteose, que teria a função de abrigar equipamentos e atividades que hoje ocorrem no Terreirão do Samba.
“Estou profundamente consciente do significado histórico desse projeto”, disse o prefeito, ao associar a proposta de mudanças urbanas ao valor do legado cultural do bairro.
Câmara do Rio: emendas aprovadas e participação no texto final
O presidente da Câmara do Rio, Carlo Caiado (PSD), afirmou que a sanção do texto legal representa fruto de articulação entre a prefeitura e o Legislativo municipal. Caiado destacou a quantidade de emendas apresentadas pelos vereadores à proposta original: foram 180 emendas, das quais 60 foram aprovadas.
Na avaliação do presidente da Câmara, o processo contou com atuação considerada propositiva por parte dos vereadores, inclusive em temas relacionados a transporte público e finanças. Ele também se referiu ao caráter sensível do tema, apontando que se trata de decisões que exigem “coragem e reflexão”.
Demolição do Elevado 31 de Março e “Avenida da Democracia”
Outra frente citada por Cavaliere envolve a demolição do Elevado 31 de Março. Na justificativa apresentada, o elevado é descrito como um elemento que, ao longo do tempo, teria criado áreas “cinzentas” na região, com impacto negativo sobre bairros como Catumbi, Santo Cristo e Santa Teresa.
O prefeito declarou que a retirada da estrutura faz parte de um movimento para recuperar espaços urbanos e viabilizar o surgimento de uma “Avenida da Democracia” no lugar do elevado.
Durante o anúncio, ele fez referência ao significado histórico associado à data do elevado e ao modo como a mudança teria ocorrido, afirmando que a demolição permitiria “dar espaço” à nova avenida. A fala foi acompanhada por aplausos.
Vocação cultural como eixo do projeto
Na programação da Praça Onze Maravilha, a dimensão cultural aparece como um dos destaques do projeto. Cavaliere mencionou investimentos voltados à memória do território e ao reforço de sua vocação cultural.
Entre os componentes citados está a Biblioteca dos Saberes, que deve ocupar o espaço onde atualmente fica o Terreirão do Samba. A proposta, conforme informado, terá projeto do arquiteto Francis Kéré, de Burkina Faso, descrito pelo prefeito como especialista em arquitetura sustentável.
A programação também prevê, segundo a fala do prefeito, o retorno do chafariz original do local, hoje localizado no Alto da Boa Vista.
Em referência ao sambista e pintor Heitor dos Prazeres, Cavaliere associou o plano à ideia de “fazer a Praça Onze sonhada por Heitor dos Prazeres”.
Território cultural e memória do samba
O secretário municipal de Cultura, Lucas Padilha, afirmou que o plano busca devolver visibilidade a um território que, segundo ele, é “um dos mais importantes do Rio” em termos culturais.
Padilha descreveu a Praça Onze como “um laboratório da cultura brasileira”, lembrando que foi na região que teria começado, na década de 1930, o Maior Espetáculo da Terra, associado ao desfile das escolas de samba.
Já o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Gustavo Guerrante, pontuou que a renovação urbana vem ganhando espaço no debate da cidade. Na avaliação dele, a condução de obras e mudanças urbanas teria relação direta com uma confiança maior entre sociedade e poder público.
Guerrante citou exemplos anteriores, incluindo o processo relacionado à demolição da Perimetral em 2014. Na fala, ele mencionou que, quando a demolição do elevado foi divulgada, houve reação popular e preocupação com os elementos estruturais existentes.
Emprego e prioridades para residentes
A questão de empregabilidade para pessoas que já vivem na região foi apontada como destaque pelo secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima. Ele afirmou que a prioridade deve recair sobre os moradores na busca por oportunidades de trabalho.
O secretário também anunciou, no conjunto das mudanças previstas, um Boulevard do Samba na esplanada ao redor do Sambódromo.
Além disso, Osmar Lima indicou que a lei sancionada nesta quinta-feira contempla a criação do Distrito de Desenvolvimento Econômico da Praça Onze. A gestão do distrito, conforme informado, deve ser feita por representantes da sociedade civil e da prefeitura.
Integração com metrô e sinalização ao setor privado
Ao tratar da iniciativa e de seus impactos urbanos, Cavaliere afirmou que a prefeitura pretende sinalizar à iniciativa privada que a região se destaca como local prioritário de investimentos.
Entre os componentes do plano mencionados no anúncio está a possibilidade de extensão da Linha 2 do metrô, no trecho Estácio–Carioca. O projeto prevê novas estações, listadas como Catumbi e Praça Cruz Vermelha.
Setor imobiliário projeta valorização da região
Representantes do setor imobiliário acompanharam a sanção da AEIU e apontaram expectativa de valorização na área. A Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ) e o Sindicato da Construção Civil (SindusconRio) destacaram que o projeto pode impulsionar a região com novas oportunidades de investimento.
O presidente do SindusconRio, Cláudio Hermolin, citou comparação com o ritmo de preços verificado no Porto Maravilha. Na fala, ele mencionou que, em 2021, o metro quadrado na região ficava em torno de R$ 5,5 mil, enquanto em 2024/hoje teria alcançado aproximadamente R$ 9 mil.
Hermolin também associou a valorização a quem investiu no início das obras e àqueles que compraram imóveis para morar na área. Já quem, segundo a avaliação dele, não entrou na fase inicial teria uma “nova chance” diante da perspectiva de 37 mil novas unidades residenciais na vizinhança da Praça Onze.
Leonardo Mesquita, presidente da Ademi-RJ e vice-presidente da Cury Construtora, afirmou que a expectativa de novas unidades pode reconfigurar o cenário local e apontou lançamentos previstos na região. Ele citou como exemplo o residencial “Saudosa Praça Onze”, com 495 unidades entre studios e apartamentos de um e dois quartos, além de área de lazer.
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